27 de nov de 2010

O Gamo-Rei

ramiro simch
Desço.
Só quero um copo de água. A luz acesa nas escadas entrega pouca visibilidade à sala, mas isso não me impede a leitura perfeita da Criatura situada pouco à frente. De fato, o escuro parece favorecer Sua visualização.
É um Animal fabuloso, o corpo perfeito criteriosamente estirado no piso de madeira, medindo quase dois metros da cabeça à ponta da cauda. A língua áspera de lixa 80 penteia com força e cuidado a pelagem dorsal – operação que exige do pescoço aquela contorção surreal típica de qualquer gato doméstico.
Os pelos são brancos e pretos; o Bicho é um yin yang bestial. Pretendo chamá-Lo de Carvão-e-Neve, mas é melhor não. Gamo-Rei. Jamais vira ou imaginara tal Ser, mas fitando-O sei logo que esse é o Seu nome, ou o nome da Sua espécie, ou da Sua classe angelical.

Gamo. Não É nem de perto um cervídeo. Se enquadrado na nossa obsoleta sistemática, é um felino, à Sua moda. A denominação roubada, porém, soa adequada - talvez esse seja o significado seminal da palavra, e o outro um engano.
Rei. Sim, certamente. Pleno sentido do termo aqui.
O Gamo-Rei me ignora. Sabe de mim muito antes de eu vê-Lo; me sabe desde que nasci. Domina a situação, e Sua malícia é aterradora.
Só que algo já não é igual. No cosmo interno do Gamo, alguma coisa O alerta de que eu, no caso, sou eu. Ele já não é capaz de me deixar de lado, e me olha com Suas infinitas vistas verdes ou amarelas. Como sei não sei, pois agora não O enxergo - tenho a cabeça entre as mãos, e os olhos fechados.
****
Eu nunca chego ao copo de água.
Subo.


25 de nov de 2010

O Empalhador de Zebras - capítulo I

Ana Elizabeth S. de Azevedo
@anabebeth


      Amanhã eu parto para a África. Talvez tu possas perguntar o que eu, uma mulher influente no mundo da cultura, ainda mais a brasileira, vai fazer na África. Bem, como era de se esperar, sempre elas, as zebras.

    Até hoje não entendi direito o motivo que fez o meu avô cuidar e ter algumas delas naquela fazenda no sul, mas posso dizer que o amor cresceu dentro de mim de uma forma meio inexplicável. Eu amo zebras desde que me entendo por gente. O fato é que a notícia corre, e a notícia é que a caça às zebras está tomando proporções desenfreadas por lá e é pra lá que eu vou.

    
    Desembarquei na República Democrática do Congo semana passada e de alguma maneira consegui chegar na aldeia da minha grande amiga Kenya, que conheci numa Conferência dos Amantes de Línguas Estrangeiras há alguns anos na Romênia. Kenya é uma mulher elegante que teve a sorte de poder estudar e conhecer a vida longe da aldeia. Ela conheceu e voltou. A história dessa aldeia é impressionante e muito rica, mas isso eu conto depois.
    O lugar é mágico. Em meio ao caos da fome e da miséria, o sol toma conta da savana e ilumina cada cabana com um dourado puramente africano. A natureza machucada e, ao mesmo tempo, abençoada pelo calor do sol, torna a minha visão uma pintura da parede da sala do meu avô. Ainda não vou falar do pôr-do-sol africano, pois sinto que ele vai me acompanhar e fazer parte de vários momentos nessa viagem. 
    O marido de Kenya me contou que Moïse Tshombe, seu sobrinho, está trabalhando para um médico austríaco que, diz ele, teria algo a ver com a queda do número de zebras no Congo. Olha, eu realmente não sei o que um médico austríaco tem a ver com zebras, mas já não fui com a cara desse cara.



15 de nov de 2010

água dura em pedra mole




ramiro simch


já sei
que água
é
líquido

mas

- mil perdões -
aquele tsunami
pareceu bem
sólido











12 de nov de 2010

El Funebrero

Sábado fui ao La Cueva, o melhor after hour que conheço. O DJ residente tocou uma track fantástica! Não há como defini-la em um estilo. Electro, Chillwave. Não, essa música rompe as fronteiras de qualquer estilo.
Há apenas uma definição para ela: surreal.
Quando o DJ acabou seu set fui perguntar de quem era a música. Ele tinha apenas uma informação. O produtor é um cara chamado "El Funebrero". Apenas um nome, sem nacionalidade, influências, trabalhos anteriores. Nada pode ser mais vanguardista que isso.





Dona Júlia

pv_lopes


A vida precisa de boas histórias. E ninguém consegue contá-las tão bem quanto o Seu Assis, taxista do ponto na esquina da rua José Otão com a  Garibaldi.
Um dia desses ele falava de uma passageira. Dona Júlia, professora aposentada, brizolista fervorosa. Seu Assis a leva todas as terças para o encontro semanal com as amigas na Casa de Cultura. Mas na última terça o destino foi outro.

¾ Boa tarde Dona Júlia.
¾ Boa tarde Assis.
¾ Dia perfeito para tomar aquele café na Casa de Cultura, Dona Júlia.
¾ Perfeito mesmo, Assis. Mas hoje tu vais me deixar em outro lugar. Na sala Redenção.
¾ Cineminha, Dona Júlia. Qual é o filme?
¾ Hoje vamos ver - sussurrando - "Carne Trêmula".





6 de nov de 2010

FIM

Ramiro Simch

Dia 31: sua primeira vez. Foram votar todos juntos.

Todo o ideário político da família pairava sobre ele; o dominava sem agressividade, tranquilo. Era ponto pacífico, estabelecido não-oficialmente: votaria igual eles.

(Seus irmãos já passaram por isso, tudo bem.)

Parou defronte à urna. Por que não? Que pensamento explosivo.

Digitou o número do outro candidato e confirmou. Ato subversivo silencioso.

Deu. Era um rebelde, um terrorista secreto no banco de trás. Seu pai, a um metro de distância, morreria - dezesseis anos depois - sem desconfiar.