27 de nov de 2010

O Gamo-Rei

ramiro simch
Desço.
Só quero um copo de água. A luz acesa nas escadas entrega pouca visibilidade à sala, mas isso não me impede a leitura perfeita da Criatura situada pouco à frente. De fato, o escuro parece favorecer Sua visualização.
É um Animal fabuloso, o corpo perfeito criteriosamente estirado no piso de madeira, medindo quase dois metros da cabeça à ponta da cauda. A língua áspera de lixa 80 penteia com força e cuidado a pelagem dorsal – operação que exige do pescoço aquela contorção surreal típica de qualquer gato doméstico.
Os pelos são brancos e pretos; o Bicho é um yin yang bestial. Pretendo chamá-Lo de Carvão-e-Neve, mas é melhor não. Gamo-Rei. Jamais vira ou imaginara tal Ser, mas fitando-O sei logo que esse é o Seu nome, ou o nome da Sua espécie, ou da Sua classe angelical.

Gamo. Não É nem de perto um cervídeo. Se enquadrado na nossa obsoleta sistemática, é um felino, à Sua moda. A denominação roubada, porém, soa adequada - talvez esse seja o significado seminal da palavra, e o outro um engano.
Rei. Sim, certamente. Pleno sentido do termo aqui.
O Gamo-Rei me ignora. Sabe de mim muito antes de eu vê-Lo; me sabe desde que nasci. Domina a situação, e Sua malícia é aterradora.
Só que algo já não é igual. No cosmo interno do Gamo, alguma coisa O alerta de que eu, no caso, sou eu. Ele já não é capaz de me deixar de lado, e me olha com Suas infinitas vistas verdes ou amarelas. Como sei não sei, pois agora não O enxergo - tenho a cabeça entre as mãos, e os olhos fechados.
****
Eu nunca chego ao copo de água.
Subo.


3 comentários:

  1. Peço aqui um texto do Rei Rizzo sobre seu também felino Snow-Miau (vide Little Santin).

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  2. Muito bom, parágrafos brilhantes.
    Quanto à este animal fabuloso, não sei... me parece que já o vislumbrei também.... e igualmente sobre um piso de madeira.
    Mas não. Deve devo estar delirando. OU então foi em sonho.

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