31 de jul de 2011

vê, homem

Ariel Engster
@ensta

tiveste bons sonhos, homem? acordaste serenamente? alegraram-te as cores do novo dia? e as notícias no jornal, são felizes?

sim, são. mesmo que falem de mortes e roubos, desastres e injustiças. são boas as notícias! elas te dizem: vê, homem, ainda está o mundo lá fora! vê, homem, as coisas continuam em seus lugares! vê que a noite não levou nada embora. vê, homem, este mundo é real: abraça-o!

pois que pena ser real! que mal serviço ao coração da gente querer tudo tão existente. a realidade te diminui, homem! não aceita o que ela diz! o mais humano é querer ser sobre-humano: faça-o! cospe na cara do jornalista que diz ‘assim foi’. esbraveja: vade retro! grita que ele não vai te aprisionar dizendo que é assim que é e é só assim que pode ser. liberta, homem, liberta!

mente, que isso te faz bem. mente, homem, que a mentira aviva a alma. conheço bem as almas. elas vivem em outros e muitos lugares. são mentiras. mentem, pois o que é a fantasia senão mentira? e sem a fantasia pode alguém viver? pode ser, sem fantasia, algo além de um carrancudo infeliz? um rancoroso malvado? um desalmado?

quando o jornalista te disser: vê, homem, é esta a verdade! tu dirás: vá longe com essa bobagem. peça dois goles de mentira, um dedo de falsidade. verás que dali nascerão todas as nossas histórias e alegrias. então teu coração estará feliz. abraça teu irmão e juntos bradem: às favas com a verdade! vê, homem, que aquele que te trouxer as notícias quer te prender a um mundo tedioso e acomodado. vê, homem, este é teu pior inimigo.

liberta, homem, liberta. sê feliz, homem.

27 de jul de 2011

Lápis e Canetas

Henrique Gabineski
e
Ramiro Simch
@miroez



Em uma tarde quente, um lápis velho chamado Grafite (Grafite era seu nome, mas todos os outros lápis o chamavam de “Vovô Lápis”) estava escrevendo em uma folha de papel.
Rogério, o dono de Grafite, via seus colegas escreverem com suas novas canetas Bic, enquanto ele só usava os antiquados lápis.
Grafite era um lápis velho que já fora apontado inúmeras vezes. Por isso, só tinha cinco centímetros de comprimento. O lápis era todo descascado.
As canetas não tratavam nenhum lápis bem, mas, geralmente, o velho Grafite era o mais maltratado.
As canetas e os lápis viviam em conflito, uma guerra que ninguém mais se lembra quando começou.
Nos estojos, começavam por insultos as brigas que derramavam tinta e quebravam grafites.
Antigamente, os lápis eram em maior número mas agora as canetas estão no poder.
Grafite já guerreou muito, mas agora está velho e cansado. Ele sabia que aquela guerra era inútil e desejava a paz entre todos os materiais escolares.
Naquela tarde começou mais uma batalha.
O amigo de Grafite (praticamente o único), Pencil, foi visitá-lo, quando ouviu os insultos contra Grafite.
- E aí, lápis velho? – gritou uma caneta.
Pencil, muito orgulhoso, não deixou por menos.
- Ô meu, qual é a tua? – perguntou Pencil.
- E tu também, lápis fedorento! – disse a caneta.
- Vai levar porrada, caneta chinfrim! – falou Pencil, que era revoltado e muito orgulhoso, e partiu pra cima da caneta.
A briga ia começar, Pencil ia dar um soco em sua adversária quando seu dono Rogério o pegou.
Segundos depois, veio Tinto, o general caneta.
- É aqui, general, aqui que estavam brigando! – disse uma caneta.
- Há quanto tempo, Grafite! – disse falsamente Tinto.
- É mesmo, seu larápio! – respondeu Grafite.
- Você me ofendeu. O que estava acontecendo aqui? – perguntou Tinto rispidamente.
- Apenas uma briguinha de jovens. Entre uma de suas canetas e o meu amigo Pencil.
- Eu não quero saber! Eu te desafio! Vamos ver se ainda sabe lutar! Amanhã, às duas. Você irá!
Depois disso, Tinto foi embora.
Grafite pensou em não comparecer ao desafio mas depois mudou de ideia. Em uma batalha antiga, quando Grafite ainda era jovem, ele foi derrotado por Tinto, graças a uma trapaça da caneta. Essa derrota gerou o estado de ditadura das canetas sobre os lápis. Grafite nunca se conformou com isso e percebeu que esse duelo era sua oportunidade de vingança. Mas ele não gostava de brigas e resolveu que arranjaria uma solução sem violência.
No dia seguinte, no campo de batalha...
- Veio, então!
- Sim!
- Então que comece a luta!
Assim, a batalha começou. Na verdade, Grafite estava muito velho e não podia mais lutar. Por outro lado, Tinto sempre treinava e estava em ótima forma.
Quanto Tinto atacou, o pacífico Grafite escapou com muita dificuldade e sabia que já estava perdido. Porém, teve uma ideia...
Observou que Tinto já havia participado de muitas batalhas e que seu corpo era cheio de cicatrizes e rachaduras. Se aproximou de Tinto e tirou a tampa (que é o ponto fraco das canetas) dele. A tinta vazou por todo o corpo do general, que foi derrotado.
A batalha acabou e Grafite venceu. A vitória do lápis ocasionou a paz entre as canetas e os lápis, e Grafite foi nomeado o rei dos lápis e das canetas. Dessa união surgiram as pacíficas e sossegadas lapiseiras.
Depois de tudo isso, a paz reinou até que Rogério ganhou um pacote de canetas hidrocores, mais conhecidas como “canetinhas”, que, apesar do nome, era uma malvada e orgulhosa raça. Mas isso já é outra história...


Texto publicado no livro Crianças do Rio Grande Escrevendo Histórias, de 2003

25 de jul de 2011

Vida no interior

@pv_lopes


Há alguns dias falava sobre morar no interior. Sair do apartamento e  viver em uma casa com jardim, horta, árvore para prover sombra no verão.
Dizia estar cansada da agitação de uma grande cidade. Queria levar vida simples, alimentar-se com produtos naturais plantados por ela. 

Passara dias longe do computador, sua única companhia foram os livros. Algumas obras de Léon Tolstói e talvez por isso a vontade de auto gestão. 

Resolveu testar antes de mudar de vez. Conheceu um casal de agricultores que aceitaram tê-la como hóspede por um período. Combinaram que todas as tarefas seriam divididas e que ela não receberia nenhum privilégio.

No último sábado ela partiu, mas antes me chamou para ouvir essa música:




22 de jul de 2011

“Está implícito" significa "não pergunte"

Paulo H. Lange
@ph_lange

Andava com aquela cara complacente de quem não tem muito a dizer, mas que pensava em muitas coisas. E então, de repente, como se tivesse sido empurrado de uma janela de um edifício alto o bastante para transformá-lo numa poça bizarra de partes internas e mucosas misturadas ao seu próprio sangue, exclamou, no meio da rua dos Andradas:

"- As pessoas que vão deixando buracos em mim, e eu não consigo encontrar quem os tape de volta. Vou acabar ficando vazio."

Meu tio enlouqueceu há uns anos atrás, na semana em que perdeu o emprego de anos para um cara mais novo, havia perdido a casa por dívidas no banco e terminou por descobriu que sua mulher o traía e chegou em casa bem na hora que ela estava fazendo as malas pra fugir com o cara; o amante estava lá e havia resolvido levar algumas coisas dele, os dois iam sumir, mesmo. Havia encontrado um revólver, calibre grosso; meu tio ouviu um pouco da conversa dos dois e abriu a porta com força, o bastante pra assustar o cara; mas o cara era um cagão, não teve coragem de atirar, meu tio voou com tudo pra cima dele e o revólver disparou, pegou de raspão no braço do cara e o filho-da-puta deu uma coronhada na testa dele. Não entendo muito de cérebro, obviamente o negócio foi sério, tanto que meu tio não lembrava de nada. Também começou a falar o que vinha na cabeça aleatoriamente.

"- Vou ficando cego pras coisas grandes e daltônico pras pequenas, sabe? Mas, ô, Palique, você desde pequeno tem cores tão bonitas."

O Palique sou eu, Paulo Tigre. Eu sei lá, você tem que compreender que não é fácil. Eu encontro alguém aqui e não digo que estou caminhando sozinho. E tenho que rezar pra que ele não berre alguma coisa que me faça ter que acalmá-lo. Eu não me ofereço pra sair com ele, mas não nego se me pedem. Ainda mais se ele pede. É até estranho quando ele articula alguma frase em seu sentido perfeito, uma ordem ou uma constatação que faça a gente olhar pra ele esperando que depois dela venha mais uma assim e que, do nada, faça ele voltar ao normal: "(...) - tá meio abafado aqui, né? Vou dar uma caminhada, preciso de ar fresco." - daí ele limpa a boca com um guardanapo, põe a colher ao lado do prato de sopa, olha pra mim e me encara por uns 3, 4 segundos e eu aceno que concordo com a cabeça e a gente sai. E depois disso não diz mais nenhuma palavra até a gente voltar:

"- Que vento frio, cortante! Devo estar sangrando, melhor fazer um curativo pro corpo inteiro. E um pra alma." - faz o sinal da cruz e começa a rezar um Pai-nosso.

Talvez o que eu realmente goste nele é a ingenuidade imponderada do que ele fala quando está tudo silencioso, ou tenso principalmente. Às vezes ele abre a boca e é como um isqueiro tipo Zippo no meio da floresta, faz uma onomatopéia pra acordar todo mundo, acende uma tocha e, refletindo a chama em amarelo bem vivo nos olhos deles, sinaliza a presença de todo tipo de predadores. Aí, a chama se esconde dentro da tampinha e você fica esperando o bote de algum deles. Jesus, com essas metáforas, vocês vão achar que o louco sou eu.

"-"Está implícito?" Mas será possível? Agora quer dizer que "Está implícito" significa "não pergunte!?" Essa gente que cochicha o que ninguém quer ouvir, vocês têm que GRITAR!" - sentado na frente da tevê.

Meu tio não é nenhum Antônio Conselheiro. O que ele fala faz certo sentido quase sempre, e não é preciso muito esforço pra que as nuvenzinhas de pensamento que pairam sobre a sua cabeça se conectem com a realidade, mas acho que todo mundo desistiu de tentar encontrar ele nas suas próprias palavras.


20 de jul de 2011

Egópole

Ramiro Simch
@miroez

Preferiam um muro pichado a uma paisagem natural. Preferiam a escuridão dos becos à sombra de uma árvore. Gostavam da fumaça. As manchas de umidade nos pescoços dos edifícios sem cor os inspiravam.

Enxergavam certa beleza nos restos dos lambe-lambes arrancados. Não apreciavam banho de rio: encharcar os pés em poças sujas agradava bem mais. As bocas de lobo sorriam para eles, o asfalto era aconchegante, as sarjetas amigáveis.

Quanto mais as ruas maltratavam, mais satisfeitos estavam. Mais atrasos do ônibus, mais ânimo. E a música independente que escutavam explicava tudo e tudo completava.

Imbecis? Talvez. Felizes? Sim. 





18 de jul de 2011

Previsão

@pv_lopes


Estava no jornal, entre um anúncio e outro: Luzia Kehanet - Todas as respostas para a sua vida. 
Uma amiga de Lívia que é capaz de realizar uma maratona por uma previsão resolveu que era o momento da moça descobrir nas cartas o homem destinado a ela.

 - Eu já disse que não vou, isso é besteira.
 - Não é besteira! Sempre funcionou pra mim.
 - Então, ao invés de um homem, pergunta os números da loteria.
 - Não seja boba, Lívia, o assunto é sério e você vem com essas brincadeiras.

Foram três dias de muita insistência e a única alternativa foi aceitar. O óculos gigante protegia Lívia daquele sol fraquinho da manhã de sábado. As duas subiram no ônibus e durante os 25 minutos do trajeto a amiga falava sobre as previsões que deram certo, tentava convencer que sem isso a vida é mais complicada.

Chegaram ao destino. Uma casa verde, janelas brancas e a placa pequena no portão "Luiza Kehanet - Todas as  respostas para a sua vida". Tocaram a campainha. Ouviram passos calmos em direção a elas. A porta foi aberta por uma mulher de cabelos claros e olheiras profundas.

 - Bom dia. Sou Luzia Kehanet. Vocês devem ser as moças que marcaram a consulta.
 - Bom dia. Somos sim. Esta é Lívia, minha amiga. Ela precisa de uma consulta.
 - Entrem, na porta eu não consigo ver muita coisa. Podem sentar no sofá enquanto eu preparo tudo. 

As duas sentaram em um sofá que ficava abaixo da janela. A luz que passava pela cortina incidia em um altar com vários santos e velas acesas.
Um gato veio na frente de Luzia. Ela trazia uma discreta maleta. Abriu sobre a mesa e dela tirou toalha, baralho e três velas. Acendeu-as. Pediu para que Lívia sentasse na cadeira em sua frente. Embaralhou as cartas e pediu que ela cortasse e escolhesse uma das partes. Lívia o fez.

 - Hum...vejo que você saiu há pouco de um relacionamento que não trouxe felicidade.
 - Acho que para isso não precisa de cartas.
 - Silêncio! Preciso de concentração. 

Dez minutos, os quais pareciam uma eternidade, em silêncio. Lívia já estava prestes a levantar e sair quando Luzia mostrou-lhe uma carta.

- Tu vês? Isso indica novo amor. Tu és de aquário, lua em virgem e primeira casa em Saturno. Está claro que a vida vai tomar novo rumo, de muita felicidade. Aguarde minha filha, em pouco tempo o teu nome será felicidade.
 - É bom ouvir isso. Espero que seja logo. Tome aqui o seu dinheiro. Muito obrigada!

As duas saíram da casa de Luzia e durante a caminhada até a parada a amiga estava em êxtase.
 - Eu falei que isso daria certo! Agora é só esperar o momento certo.
 - Com certeza. Mas só uma coisinha, meu signo é Áries.

15 de jul de 2011

O tempo passa

Ana Elizabeth S. de Azevedo
@anabebeth

          Ela abriu os olhos. Sentiu o sol beijar sua pele através dos espaços na janela entreaberta, finalmente havia parado de chover. Levantou-se e abriu todas as janelas, deixando a brisa leve dos primeiros ares da primavera entrar. O gelo todo derretera. Respirou o perfume das flores selvagens que floresciam no quintal. Os raios de sol batiam e misturavam-se nas águas do lago, as montanhas ao fundo tentavam, com audácia, tocar o céu. A paisagem fundia-se como o impressionismo das pinceladas de Monet. Ela quase perdeu o fôlego. O tempo, afinal de contas, tinha passado. Mas ainda faltava alguma coisa.
          O cinza do céu se fora e a vida voltara a habitar as árvores. O bosque renascia e as lembranças do último inverno, aos poucos, iriam para o fundo da mente. A dor iria cessar. Feliz, um imenso calor invadiu seu coração e tocou fundo na alma. A esperança também renasceu. Havia avistado, ao longe, um pequeno barco voltando à margem. O vulto no barco acenou com vigor e energia. A paisagem completou-se e esse foi o ápice da manhã, o início do final feliz.
           Correu para dentro, iria acordar as crianças, mal podia esperar.
           Hoje teriam o que jantar.

14 de jul de 2011

Solidão Salgada

Ramiro Simch
@miroez

Seus sentimentos se parecem com aquele homem.

O homem navega sozinho. Singra as águas espessas, o mar cinza e gelado que enlouqueceria um ou outro mais frágil. Mas não ele.

Todas as manhãs o homem senta-se no convés, com as costas apoiadas na parede de metal da cabine. Assim ele permanece durante todo o dia, encolhido em um cobertor pardo que o cobre do queixo aos pés. É frio demais ali.

Ele poderia ficar dentro da cabine, ou no aposento sob seus pés. É mais quente, confortável, mais seguro. É seco. As ondas não o chutariam quando ultrapassassem a amurada, a chuva e o vento não o castigariam, e ele não ficaria ensopado e doente.

Mas o homem não pode ficar dentro de nada. Ele não conseguiria. O homem precisa estar ali, cara a cara com o ar, as nuvens e o oceano. O mar é tudo para ele - seu acompanhante, sua muleta, seu amigo. Este mar, que não nos é importante (pois colocamos o que importa nos mapas, e este mar não está em nenhum), é o elemento essencial da rotina do homem.

Aquele homem se sente sozinho. É uma dor sem remédio e final, que apenas o mar ameniza. Seja cauteloso. Não deixe que seus sentimentos, estes sentimentos parecidos com aquele homem, tornem-se iguais a ele.



11 de jul de 2011

All Star


@pv_lopes

Ela ligou o rádio e estava tocando a sua banda preferida. Melhor forma para iniciar o dia. Levantou da cama dançando e foi direto para o chuveiro. Depois do banho tomou seu café da manhã. Pão integral, suco de laranja e mamão.

Vestiu a calça jeans preta, a camiseta do David Bowie mas ficou em dúvida sobre qual tênis colocar. Sentiu vontade de um novo all star. Branco de couro? Amarelo de cano alto? A decisão foi de, no final do dia, passar em uma loja.

Foi para a última aula do semestre. Saiu de lá com o sorriso de dever cumprido. Passou na biblioteca para devolver alguns livros e depois uma partida de sinuca para fechar com chave de ouro.

Fone nos ouvidos, hora de escolher o tênis. Entrou no shopping e mais uma grande surpresa, uma de suas bandas preferidas estava lançando o novo EP. O tênis ficou para depois, era hora de tomar um suco de laranja e assistir a apresentação.



8 de jul de 2011

Sergei Romanov

Gabriel Oro
@orofeelings

Sabe, os russos...

Outro dia cinzento era só o que outubro trazia para Sergei Romanov.
Suas roupas tinham a cor daquela manhã fria, e aquela manhã fria tinha a cor de seu espírito. Sergei morava na pequenina vila de Kotelniki, ao sul de Moscou, desde que nasceu há quase trinta anos atrás. Seu trabalho também era pesado e cinzento, operava a prensa do único pequenino jornal da cidade, o que significava trabalhar por toda a madrugada e ir embora no meio da manhã, com a tinta preta nas mãos contrastando com sua pele muito, muito branca. O curioso é que ele nunca conseguia tirar a tinta das mãos completamente, antes de voltar ao trabalho na noite seguinte e se sujar de novo, tornando-as permanentemente acinzentadas.
Sergei era um homem simples, morava em um apartamento simples, em geral reservado, um homem que não gosta de ser incomodado. Sua cidade, suas roupas, seu emprego, tudo refletia aquele ambiente branco, preto e cinza.
O que só lendo minha descrição vocês ainda não descobriram é que ele na verdade gostava do branco e preto. Gostava não, ele amava o branco e preto. Aquelas duas cores representavam para ele a paixão, a raiva e a alegria, o orgulho e a decepção, a esperança e o desespero.
E o que só lendo minha descrição vocês ainda não descobriram, é que ele gostava de futebol, e branco e preto eram as cores do FC Torpedo Moscou, para Sergei Romanov, o melhor clube do mundo. O Torpedo criava, do preto e do branco, o ponto mais colorido do coração de Sergei.
Casualmente o destino providenciou que ele não conseguisse dormir aquela manhã. Uma prensa antiga como a de seu jornal fazia tanto barulho que, após alguns anos, o silêncio começava a incomodar. Era quase meio dia, Sergei preferiu ir atrás do almoço. Andou, passando por vários restaurantes, alguns muito cheios, muito alegres, muito grandes, muito caros. Chegou no último da cidade, um barzinho que servia almoço. Sentou, pediu o especial do dia com um copo de vodka e outro de água e esperou. Olhava ao redor, uma senhora da idade de Stalin, se estivesse vivo, terminava sua refeição num canto. Um homem lia o jornal que Sergei havia impresso poucas horas antes, no canto contrário do bar. E este foi o problema. Por cinco segundos, o jornal capturou o olhar de Sergei e nesse tempo, o homem baixou as folhas para virar a página.
O que só lendo minha descrição vocês provavelmente não sabem, é que o Torpedo é diferente dos outros times da Rússia. Foi campeão nacional da União Soviética, ganhou vários títulos importantes em sua longa história mas, recentemente, foi também condenado pelo tribunal desportivo a disputar a última divisão nacional. O motivo, foi fraude fiscal. O motivo da fraude, foi lavagem de dinheiro. O motivo da lavagem, foi um grande roubo. O autor do roubo foi um cartola chamado Syrio Valov.
É claro que era Syrio Valov lendo aquele jornal.
Ele lia e comia, o mesmo prato. Chegou a refeição de Sergei também, que comeu sem sentir o gosto do bife. Estava duro, muito passado, o de Syrio Valov parecia macio e avermelhado, tinha consideravelmente mais molho e o acompanhamento estava com uma cara muito melhor também. Parou de ler o jornal pra tomar um gole de um líquido... âmbar? Ele não tomava vodka, tomava uísque. Aquilo já era demais.
Infelizmente, Sergei Romanov não pôde estar no jornal para imprimir o próprio rosto na capa, no dia seguinte.


4 de jul de 2011

Almoço no Bom Fim

@pv_lopes

O inverno parece ser agradável para apenas uma pessoa. Lívia. Ela caminha pelas ruas do Bom Fim com o sorriso de quem não liga para a temperatura, apenas aproveita o sol do final da manhã. Sempre bela, vestida com gabardina rodada, calça jeans e aquela sua bota preferida, segue pela João Telles para almoçar.

Segunda-feira ela costuma comer no Ocidente, diz que a semana começa melhor quando a refeição acontece lá. 

Entre uma garfada de feijão branco e outra de ramequim de moranga, ela fala sobre o seu mais recente relacionamento. Um rapaz boa praça, trabalhador e estudioso, interessado e engraçado. Parece que agora vai dar certo. No entanto algo a incomoda.

Lívia quer alguém que a compreenda. Não precisa de um namorado que simplesmente conte a piada mais recente, que a leve ao lugar mais hypado da cidade. Ela deseja alguém que descubra tudo no seu olhar, que ofereça sensações ainda não vividas.

Lívia diz que o feijão está maravilhoso, de fato está, mas na verdade o elogio foi para mudar de assunto. Ela sabe que ainda não encontrou o cara certo, mas acredita que um dia isso acontecerá. Prefere não construir um muro de lamentações, mas sim seguir com aquele inconfundível sorriso de quem sabe que a hora certa vai chegar.

1 de jul de 2011

Rascunho para a orelha de um livro qualquer

Ariel Engster
@ensta


Fizeste, caro leitor, uma bela compra. Ou ótima locação, pois tenho certeza que é tão fantástica esta obra que será obrigatória em toda biblioteca de respeito, tanto no Brasil quanto fora dele. Enfim, fizeste, caro leitor, uma boa escolha da qual não te arrependerás.
Tens em mãos, meu amigo, uma preciosidade. As palavras que aqui se encontram casam-se com uma sutileza encantadora. As reviravoltas são emocionantes e os diálogos perspicazes. O protagonista é tão heróico que devia ser nome de escola e ter uma estátua em uma grande avenida. Eu admiro, caro leitor, a inenarrável habilidade deste autor de pôr no papel os mais tocantes sentimentos. Por isso, tanto faz se a história que ele contar se passar numa palhoça no interior da Bahia ou num charmoso hotel na Champs-Élysées, sempre será uma deliciosa leitura. Imagino que assim também seja este livro.
Imagino, pois não li o livro. Sinto-me na obrigação de confessar. Não me leve a mal, por favor. Também não suspeite que o fato de eu não ter lido é prova de que não vale a pena lê-lo. Isso não é verdade. Há milhares de livros por aí que eu não li ainda. Provavelmente, o melhor livro de minha vida ainda está numa estante qualquer em algum lugar por onde não passei. Ou, quem sabe, ainda na cabeça do autor. Além do mais, tenho lido tantos livros ruins que acho até que o problema sou eu.
Este livro, entretanto, é uma bela obra. Tenho certeza disso. Se acontecer, por acaso, de o livro não ser tudo aquilo que propagandeio, por favor não me culpes. Sou somente a flor no cabelo da morena: não sou necessário, mas embelezo um pouco mais. Sou só a sombra do autor, tenha pena de mim. Mas se o livro for bom, quem sabe não estarei logo escrevendo orelhas para autores consagrados?
Além disso, acho uma maldade que nos contem antes a história que iremos ler.