29 de ago de 2011

Quanto tempo?

@pv_lopes

Deveríamos ter um mínimo controle sobre o tempo. Não precisaríamos viajar através dele, apenas poder retardá-lo ou acelerá-lo um pouco. Sem rewind, pois se houvesse a vida teria menos graça.

Um tempo mais lento para poder viajar  com o Arthur Dent até o restaurante do fim do universo ou conhecer as histórias de Caulfield.

Um tempo a mais para entender...o tempo. Para descobrir o tempo certo de uma xícara de chá, da distância entre um olhar e um sorriso, da duração da música que antecede a partida.

Um tempo para se dar conta que ele passa. Que ele muda o caminho das pessoas, aproxima algumas e afasta outras. Apaga algumas coisas e eterniza o que é importante.

Um tempo para descobrirmos logo o que é realmente importante antes que seja tarde demais.

Quanto tempo tu precisarias?





27 de ago de 2011

Sobre um sonho


Ariel Engster
@ensta



Faz poucos dias, sonhei que tocava tamborim. Num bloco de carnaval. E sorria muito e o samba era um do Adoniran. Que eu acho que nem tamborim tem. Mas em sonho pode, né? E assim que terminou o Adoniran nós - eu e os milhares, ou centenas, de rostos amorfos suados e sorridentes - cantamos:

Eu vou brincar o ano inteiro nesse carnaval/Não vou deixar que a cinza venha e suje o meu quintal

Foi aí que eu já não tocava tamborim, mas violão e já não estava na multidão, mas sozinho, enfim. E tudo que eu queria era gente à minha volta, que tocassem tamborins e suassem, que tivessem sorrisos em caras amorfas e fizessem coro ao meu canto/lamento:

Eu quero é botar meu bloco na rua/Brincar, botar pra gemer

Surgiu então a menina com quem sonhei noutro dia. Ou acho que sonhei, já que várias vezes eu sonho e no próprio sonho eu penso "eu já sonhei isso/com essa pessoa" e quando eu acordo eu reflito e chego à conclusão que não, que aquela fora a primeira vez que eu sonhara com aquilo/aquela pessoa. Mas é mais bonito acreditar que eu já sonhara com ela.
Surgiu então a menina com quem sonhei noutro dia. Ainda bem que se vestia do mesmo jeito que no outro sonho, pois sua voz era diferente, o rosto também, os trejeitos também, o nome também (mas eu não lembro qual era o nome). Eu levantei e cruzei o salão onde agora estávamos, peguei sua mão e a convidei para dançar.
Não era valsa, nem polca. Não era sequer uma rancheira. Era Asturias, tocada por um taciturno violeiro. E eu juro, ah! eu juro, que éramos o casal mais belo que já dançara qualquer música em qualquer salão. Éramos rodopios, saia girando, meu passo conduzindo a moça. Só nos assistiam gárgulas na escuridão. A música fazia-se infinita e aquele amor que eu sentia, que era febril e inconsequente e que poderia levar adiante aqueles giros eternamente, tornou-se triste e cansado e então eu vi: que ela já não era quem eu sonhara, que não havia música no salão, que tampouco era eu quem sonhava...
Era eu, o último trompetista, solitário, a tocar a decadente marcha de carnaval que eu mesmo compusera, numa sarjeta enquanto o sol nascia. Esquecendo tudo e todos que antes ao meu lado estavam. Suados, amorfos, sorridentes. Era eu, o derradeiro homem a ver o derradeiro céu. Era eu, eternamente só, cantando:

Se você jurar que me tem amor/Eu posso me regenerar


25 de ago de 2011

People are strange

Ramiro Simch
@miroez

Estranho pensar nos outros como outros eus tão complicados quanto eu. Egoísta, estranho. Todo o universo que carrego e desenvolvo dentro de mim, com o qual convivo e que me machuca e desafia e – vez ou outra – me alegra, a mais complexa e instável plataforma de ideia e pensamento que cada um de nós pode conceber (cerceados por ele próprio, claro: ele delimita ele mesmo), todo esse universo é irmão de outro igual que vive dentro do outro, e de outro que há na outra, e dos outros no resto dos outros.
Estranho pensar no nosso egocentrismo. Isso é tão óbvio.


22 de ago de 2011

Detalhes

@pv_lopes


Volta e meia o assunto são os relacionamentos. Aqueles que foram rápidos, que perduraram, deixaram marcas ou apenas resquícios na memória.
No final permanece as boas lembranças. Os passeios no parque, a pipoca doce no Gasômetro. 

O vazio costuma ser grande, nada parece substituir a pessoa amada, ou não mais tão amada. Algumas vezes o fim vem sem que seja desejado e acaba sendo mais forte. 

Nesses momentos todos tentam consolar, oferecer palavras de carinho, mas é preciso entender que o luto pelo fim é necessário. O ciclo precisa ser fechado.

É preciso ficar só, colocar aquele disco do Roberto Carlos para tocar. Compreender o que aquela pessoa representou e ainda representa. Entender o que se quer nessa nova fase.

No final de tudo fica evidente que todo relacionamento serve para tornar cada um mais forte, sensível, tranquilo. 

19 de ago de 2011

Sobre nossas cabeças


Paulo H. Lange
@ph_lange

- Conheci um urubu ontem à noite. Três deles. São pouco espertos, mas circulam em bando por isso. -

Sabe o que pareceu? Que eram abutres, urubus... É que tava na cara que eles só queriam uma desculpa, eles tavam desafiando elas, e, claro, elas compraram. Mas tá certo, tem que comprar, mesmo, ainda mais que a gente tava em terreno inimigo, sabe? Sentados num café 24h na Padre Chagas... Te explico como chegamos lá noutro dia, enfim; 

Sabe o que eu detesto naquele lugar? É que tu sabe que vai encontrar esses tipos lá. Ele é o cara que tem sempre novos amigos, os que têm cérebro e conheceram bem ele, ficaram pra trás. Mas o que importa é o prestígio, o cara é um merda, mas ele tem prestígio. Tá, tô ficando meio teórico, vou deixar este copinho de suco de cevada mais de lado; suco de cevada, conhece essa? É do Mussum, aquele cara era um gênio. 

MAS... Voltando pro assunto, os três, esse bem coroa, um demagogo no sentido mais completo da palavra, tá ligada? Um cara que acha que conquista as pessoas só porque fala mais alto e diz que não tem medo de dizer o que pensa. Ele acha que é um diplomata, de certo, só porque consegue dizer "com todo o respeito" antes de te insultar, o cara que ri alto pra que todo mundo veja que é hora de rir também... Não, eu sei, parece triste, mas até que não é... Ele tava junto duma típica profissional em arranjar relacionamentos passageiros com homens mais velhos e ricos, então o velhote ia poder dar umas com uma mulher mais nova. Sabe o que me irrita? É que ele é um merda, mas sempre vai ter alguém pra dar uma masturbada no ego dele... E tinha um outro cara, que faz a linha "moderado em tudo", quem puxou o papo com a gente: "Qual é a treta?". Pobre coitado, aos 30 anos, e já usando Grecin 2000, quer ser incluído em todos os círculos.

Eu poderia falar tanto deles. Mas vou ser breve, entendo que a essa hora, é difícil de acompanhar e eu mesmo não tô conseguindo organizar os pensamentos na minha cabeça. Estávamos nós 4, e fora eu, os três eram gays. Não, minha cara, pode confiar no pai Tigre, aqui. Ah, mas eu sei, me garanto. Podia até te mostrar, mas aqui no meio da rua às 2 da tarde, iriam querem nos prender e eu te digo uma coisa, só paro depois da terceira... Haha! Então, eu era o único hétero, e, tá, deu! Deixa eu contar, poxa. Dúvidas sobre a minha masculinidade eu só respondo na prática. Ok, então. Aí, as duas garotas se beijaram, um beijo mesmo. Ser hétero nessas horas é cruel. Como diria o Raul, onde é que eu me encaixo? E a gente tava meio perto da mesa deles. Eventualmente, como eu disse, o cara puxou assunto com a gente e o assunto acabou entrando nisso e, pra resumir, o careca acabou tentando fazer elas explicarem como é ser lésbica. Algumas suposições a mais e logo esta perfeita descrição da demagogia ambulante comparou homossexualismo com pedofilia. E pronto, agora tínhamos seis pessoas falando alto e dando sua letrinha. Mas aí que vem o troço do urubu, eles ficaram rondando, só ouvindo a conversa, observando a maneira de como uma tratava a outra e dando aqueles risinhos um pro outro de "essa juventude tá se perdendo" e negando a cena com a cabeça. Estavam à espera de que elas definhassem pra mergulhar até o chão e se alimentar da carniça. Não! Não tô xingando ninguém! Mas tipo, que falassem alguma coisa errada, meio confusa e então iam rebater e sei lá, entrar numa discussão em que o cara dissesse "vocês são muito novinhas" ou que insinuasse que isso era um "ímpeto de transgressão" que elas tinham que exteriorizar. E, de fato, foi isso que aconteceu, o cara conseguiu. Não tô dizendo que elas foram ingênuas de comprar a discussão, mas é essa coisa de ficar à espreita, circulando sobre as nossas cabeças, pra espalhar suas certezas sobre a vida e suas conclusões sobre a natureza humana.  

Deus do céu, certas pessoas amaldiçoam essa terra só por existir.


15 de ago de 2011

Adéu, Barcelona

Eu apostei na mudança de cidade para buscar uma vida melhor. Muitos fazem o mesmo e encontram cidades com encantos invisíveis para aqueles que nasceram nela.

O café de determinada rua, a feira do final de semana. O sotaque diferente, a maneira diferente de ver a vida. Vivência extremamente enriquecedora.

No entanto, às vezes esquecemos de retribuir à cidade o que ela nos oferece.

Foi o que aconteceu neste vídeo.




12 de ago de 2011

O Empalhador de Zebras - capítulo V

Ana Elizabeth Soares
@anabebeth

Depois de ter tornado minha cabana habitável novamente, trocando algumas madeiras e consertando a maioria dos móveis, resolvi transformá-la, enfim, num lar. Os finais de tarde, tempo que dedico aos meus pensamentos e ao pôr-do-sol africano, meu combustível, acabaram me inspirando. Consegui com os vizinhos alguns tocos de carvão e deixei a imaginação e o desejo fluírem nas folhas de papel.
Hoje, depois de outra busca sem sucesso ao médico austríaco, emoldurei dois pequenos desenhos que fiz retratando a savana e pendurei-os na parede da sala, que também é meu quarto.

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Estou me sentindo cansada e desmotivada. Chega o entardecer, porém nem o pôr-do-sol quero ver. Pretendo dormir cedo. Amanha é um novo dia, uma nova esperança, preciso acreditar nisso. Adormeço em meio a pensamentos sobre minha jornada diária frustrante, sem nunca obter respostas concretas. Imagens e sensações permeiam minha mente, zebras, zebras, alguém de chapéu carregando-as. Devo estar sonhando. Não sei quanto tempo se passa. O telefone toca, não quero atender. O barulho incessante do celular me desperta. A voz no telefone diz só três palavras. Corro para a porta fazendo perguntas. Meu coração para.
A paisagem do meu pôr-do-sol está manchada de sangue.
E os cabelos dele, ao entardecer, ainda mais dourados.
Aquele olhar, mesmo ao longe, causa um calafrio sem igual. As feições angelicais definidas por uma única cicatriz na têmpora esquerda. O rosto do médico, marcado pelo assassino.
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Eu saio correndo, sem pensar, em direção à camionete que avança, cada vez mais rápido, na direção oposta à aldeia. Aos poucos vou perdendo o fôlego.
Olho para trás e avisto um vulto cada vez mais próximo. É a última coisa que vejo antes dos meus olhos se fecharem.



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capítulo I
capítulo II
capítulo III
capítulo IV


8 de ago de 2011

A Carta


@pv_lopes

A correspondência estava na caixa de correios. Há alguns dias Dona Carolina não conferia a chegada de cartas, pois já estava habituada ao uso da internet.
Aproveitou a brecha da chuva, logo após o almoço, para conferir a caixa. Estava lá, a carta da neta.

"Querida vó,

É com muito prazer que envio esta carta. Quero avisá-la que a vida aqui no sítio está muito boa. Aprendi a tirar leite e tratar os animais. Ontem fiz um passeio à cavalo durante a tarde só pra ver a cachoeira que eu havia descrito para a senhora. Pena que a água estava muito fria, senão teria aproveitado para tomar banho.
Os últimos dias tem iniciado com a grama coberta pela geada. Dá uns barulhinhos quando pisa.

Amanhã vou começar a horta nova. Ela ficará entre a casa e a bergamoteira. Serão seis canteiros, um para cada salada. Quando estiverem no ponto de colheita levarei alguns pés de alface para a senhora.

Vó, encerro mais esta carta com a felicidade dessa nova fase na minha vida, acompanhada da saudade de estar com a senhora. Semana que vem envio mais notícias.

Com carinho,
Joana"


Uma pequena lágrima escorreu pelo rosto e um sorriso no canto da boca, enquanto Dona Carolina fechava a carta.
Sentia orgulho da neta, pois ela estava no caminho de encontrar a resposta para as suas inquietações. Ela, que vivia angustiada pela procura daquilo que nem ela sabia o que era, apenas sabia que existia. O confronto com o acaso parecia estar trazendo a tranquilidade que tanto desejava.

5 de ago de 2011

Vida e Mortes de um Viajante - Parte I

Gabriel Oro
@orofeelings

O que melhor me lembro é que estava muito frio. Eu fumava rápido para poder acender logo o próximo cigarro. A neve já não nevava mais, o vento já não ventava mais, só havia ele. O frio.
Apenas cinco minutos restavam entre e a meia noite e eu, os casacos pareciam não fazer muita diferença naquele momento. O único poste na quadra marcava o meu posto de espera e projetava a sombra aos meus pés, pequena, tímida. Poderia estar tentando se esconder, certamente é o que eu faria. Ficar esperando em uma rua de cidade grande, tão acostumada com o movimento, mas naquele momento tão completamente, tão agressivamente deserta e silenciosa, traz uma sensação incomum, como que se devesse estar sendo observado... mas não se está. A hora se aproximava e uma camada de chuva – tão fina que mal podemos chamá-la assim – cercou-me completamente, sem fazer barulho algum, levantando uma lenta fumaça transparente do poste sobre minha cabeça.
Qualquer homem teria medo em meu lugar, não há como parar no meio da rua esperando um fantasma no frio gelado da noite, e não sentir medo. Mesmo que este fantasma ainda esteja vivo. Peguei mais um cigarro, levei-o a boca, acendi um fósforo, mas ele dançou por um segundo e morreu na minha mão, vencido por aquela chuvinha rala. Acendi outro fósforo e me curvei com a mão sobre ele.
Naquele momento, senti algo sendo encostado levemente contra minhas costas. Estremeci. Já fiquei sob a mira de uma arma vezes o bastante para saber o que estava acontecendo. Uma mão de couro negro apareceu a minha esquerda, sinalizando que ficasse quieto. Se há uma coisa que a minha profissão ensina é que a pessoa que não está apontando a arma não tem direito de voto. A mão sumiu por um instante e voltou com um pequeno pacote, que foi cuidadosamente colocado no bolso de meu casaco. A pressão nas minhas costas sumiu, ele se virou e cobriu em quatro passos a pequena distância até a esquina. Tudo isso não levou dez segundos, eu nunca sequer vi seu rosto.
Assim que o choque passou, perdi a força nas pernas. Me segurei no poste por um instante e em seguida soltei-me no chão, respirando rápida e profundamente. Aquela chuva fraca começava a se transformar em neve, era melhor ir embora. Caminhei sentindo nas costas o peso do pacote em meu bolso, mas acalmado pelo fato de que a neve cobriria as minhas pegadas pela manhã. Essa é uma das grandes vantagens do modo como eu vivia, o passado pode ser escondido tão facilmente quanto pegadas na primeira neve da noite.
Mesmo assim, não conseguia deixar de pensar sobre como havia entrado numa situação como aquela, como havia chegado tão longe naquele mundo onde todos são invisíveis. Pensei no que havia me levado até lá aquela noite, pensei no dia em que fugi de casa, pensei na menina que vendia livros em minha cidade.
Pensei na primeira pessoa que havia matado.

Fim da parte I

3 de ago de 2011

Rapel corpóreo


Ramiro Simch
@miroez

certa feita espiou
saiu da orelha
deslizou pelo lóbulo
escapou

aterrissou na clavícula
descendeu pelo braço
se jogou na cintura
prosseguiu

deslizando na coxa
descansou no joelho
e num salto audaz
- pé!

1 de ago de 2011

Navalha

@pv_lopes


Ele é aquele que acompanha o teu crescimento. O teu primeiro corte de cabelo, a mudança de estilo, a franja para tapar aquela pequena cicatriz.

Não precisa pedir, basta sentar na cadeira e ele já sabe o que fazer. É uma pessoa bem informada, fala de esporte e política. Um pouco de história também é com ele. Principalmente histórias um pouco duvidosas, repletas de detalhes.

Em alguns momentos da vida mudei de cidade e infelizmente precisei deixá-lo. Ele compreende a ausência e deseja sorte. Sempre que possível volto à cidade e dou aquela passada para colocar a conversa em dia.
Fala-se sobre o tempo, o time, o governo e para finalizar sempre vem uma receita infalível.

Na nova cidade, nova barbearia. O ritual recomeça. Menos mal que logo tudo volta ao normal e o novo barbeiro já lembra como cortar o cabelo. No entanto alguns contratempos acontecem, entre eles as férias. Sim, barbeiros também tiram férias e normalmente são nos dias mais cheios, onde a passada rápida na barbearia não pode ficar para outro dia.
Quando isso acontece, a barbearia está quase vazia e o barbeiro da cadeira ao lado está sentado no sofá lendo o jornal. Não adianta entrar e perguntar pelo barbeiro de sempre, ele irá dizer que está de férias e sem tomar fôlego já o convida para sentar e cortar o cabelo.

Por alguns instantes hesitei o convite, mas a necessidade imperou e aceitei. Contudo, permaneci em absoluto silêncio. Apenas acompanhei cada movimento, tomado por um sentimento de culpa. A cada deslizar da máquina parecia acompanhar um pedaço da lealdade. Acredito que logo após a minha saída, o barbeiro telefonou para o seu colega, sem pudor por estar atrapalhando as férias, para contar o que havia acontecido.

Foi um pequeno deslize, por necessidade. Espero que seja compreendido, caso contrário corro o risco de ser decapitado com uma navalha de pouco fio.