15 de abr de 2011

Alícia e Pedro

Gabriel Oro
@orofeelings

Pedro trancava o escritório e entrava no carro confiante de que este seria o ano. Sabia que naquele exato momento Alícia o esperava em casa, preparando uma pomposa refeição e planejando as mais cruéis, absurdas e obscuras formas de torturas medievais, só para o caso de ele esquecer. Mas ele não havia esquecido; desta vez, este ano, este vinte e um de agosto não seria de culpa e de brigas, pois completavam-se quatro primaveras desde que eles começaram o namoro e Pedro, finalmente, estava preparado.

Haviam sido dias difíceis, mais uma vez. Há exatamente 365 dias ele ouviu sua amada discursar por uma hora e quarenta minutos sobre como ele não lhe dava valor. Meia hora a mais que no ano anterior. Ah, o ano anterior... Naquela vez, Pedro lembrou da data apenas no caminho pra casa, com as lojas já fechadas, e acabou presenteando-a com um cartão de posto e um buquê artificial de cinco reais, mas que valia uns três. O desespero de percorrer a cidade durante a noite, todos os esforços para obter aqueles presentes, que passaram sem o menor reconhecimento...

Mas hoje ele havia traçado um caminho à prova de erros. Do início ao fim a noite seria perfeita. Os chocolates que abririam sua empreitada eram os preferidos de Alícia, o champanhe que regaria o jantar era aquele mesmo que umedecera seus lábios logo antes do primeiro beijo. Pedro percorreu lojas em cantos nefastos da cidade para achar um disco de vinil, sim, vinil, que contivesse a música que tocou no restaurante naquela noite, a música que emoldurou um beijo inesquecível. Ele sabia que ela adorava discos, sabia que ela adorava a voz de Frank Sinatra, e sabia que ela adoraria que lembrasse.

Ao sair do trabalho colocou seu paletó, passou o perfume que preventivamente levara consigo, um gel para cabelo e até um creme para a pele. Conferiu se tudo que ele havia comprado estava no banco de trás e se dirigiu para a casa do Alencar, que tinha se comprometido em guardar algo para Pedro. Em uma caixinha branca e delicada, no fundo da gaveta de meias do Alencar, o golpe de misericórdia aguardava, a última cartada, o all in vitorioso que acabaria com as fichas de Alícia, o último presente da noite: um discreto porém elegante colar de pérolas banhadas a ouro branco. Seria uma mosca no mel.

Nosso herói havia feito seu dever de casa, sabia que sua mulher amava pérolas, sabia que os colares desse tipo estavam na moda, algo que ela prezava, e sabia que o presente era mais caro que qualquer coisa que ela o tivesse comprado, o que resultaria em alguma compensação, possivelmente física, possivelmente com juros...

Com o colar seguro em sua caixa, os bombons e o disco debaixo do braço, perfumado e hidratado, Pedro entrou confiante em sua casa. Alícia estava muito bem vestida, tão bonita quanto da primeira vez em que a viu. A comida tinha um cheiro magnífico.

Alícia se aproximou sorrindo alegre, vendo que enfim ele havia lembrado. Ela caminhava em sua direção, era isso, eles se beijariam, ela amaria os presentes, talvez acabassem até ignorando o jantar e indo direto ao quarto. Estava tão perto, era agora, “Eu consegui! Dessa vez eu consegui!” pensava Pedro, quando de repente os olhos de Alícia se fixaram em algo no lado direito de seu peito. A expressão dela fechou na hora, mas seu corpo seguiu chegando mais perto, mais rápido. O coração de Pedro quase saltava pra fora quando sua esposa esticou o braço em direção ao bolso de seu paletó e retirou de dentro dele a calcinha de Claudete, a secretária, displicentemente esquecida e parcialmente exposta. Como é que o desgraçado do Alencar não avisou...

Ela saiu do apartamento naquela noite para nunca mais vê-lo, nem a Pedro nem ao apartamento. E nosso herói ficou parado ali, sem saber direito o que havia acontecido, com pérolas em uma mão, chocolate na outra e Sinatra caído ao chão, confortavelmente embaixo de uma calcinha.

Um comentário: