8 de abr de 2011

Eu durmo na posição dos mortos

Ariel Engster
@ensta


Eu durmo na posição dos mortos no caixão. Não fui eu que percebi isso, claro. Meus amigos me disseram. Com fotos provaram-no. E depois disso já me vi indo dormir com as mãos cruzadas sobre o peito, já acordei em tal posição.

Meus amigos fizeram troça, achando bobagem. Mas vi, numa ou outra cara, um medo secreto daquele ato nefasto: que motivo me levava a assumir essa postura?

Ouvi suporem que eu antecipava a hora do passamento. Que eu brincava com ela. Ou que me preparava para ela. Ouvi que eu não batia bem da cabeça. E que ansiava por bater as botas.

Alguém logo gritou: “é filho de pastora luterana, cresceu enterrando os mortos!”. Outro disse: “Vive ouvindo réquiens noite adentro!”. Um terceiro retrucou: “Quê! É apaixonado pelo Nosferatu!”.

Fiz-me quieto. Nada disse. Por que não muito havia a acrescentar. Não muito havia a negar. Eu era aquilo que diziam. Fazia aquilo que diziam. Eu não era senão uma pessoa funesta.

Poucos conheço que tanto se importem com a morte. Poucos aí estão para ouvi-la. Eu não me acomodo. Não a aceito. Não a entendo. Eu a temo.

Eu, crescido numa casa cristã, descobri que Deus só quer bem quem o ama. Que criou a todos para adorá-lo. Se não venerá-lo, é inferno na certa. Ou seja, ninguém mais egocêntrico que Deus. “Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos” diz Romanos 14.8. Eu, que não sou de puxar-saco de ninguém, estaria condenado.

Infelizmente, todas as religiões parecem ser assim. Todos os destinos parecem ser o mesmo: o louvor ou nada. A outra opção é não crer em ninguém e aceitar que após a morte tudo acaba. Que existimos e temos consciência disso por nada. Que amamos pessoas e as vemos partir e nunca mais estaremos juntos delas. Que somos num ambiente injusto. Que perderemos, não importa o que aconteça.

Eu queria poder fazer como Bergman fez em O Sétimo Selo: jogar xadrez com a Morte, postergar a hora derradeira enquanto fosse possível. E queria, quando chegasse o momento, me despedir cantando belo como fez Noel Rosa: “Quando eu morrer, não quero choro nem vela. Quero uma fita amarela gravada com o nome dela.” Ou, ao menos, conseguir não pensar nisso até lá.


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