22 de abr de 2011

Fazenda Pôr-do-Sol

Ana Elizabeth S. de Azevedo
@anabebeth

Voltou.

A sensação de retornar àquele lugar era algo que nunca antes sentira.
A porteira parecia mais velha do que na sua lembrança. A pequena placa de madeira com o escrito "Fazenda Pôr-do-Sol" estava na diagonal. O horizonte parecia menor, porém as árvores ao redor da casa branca, agora com aspecto mais antigo que nunca, continuavam verdes. O antigo galpão nos fundos da casa parecia estar caindo aos pedaços. Os cavalos pastando não eram mais os mesmos. O sol que aquecia aquela paisagem há tempos longe de sua visão, esse sim, continuava igual.
Haviam se passado 14 anos.

Sempre foi relutante ao desejo que seu pai tinha para ela - de continuar a vida na pequena, mas próspera, Fazenda Pôr-do-Sol - e fugiu dali com 16 anos. Deixou para trás a tranquilidade da vida no campo, sua infância, sua família e suas primeiras experiências.

No exterior, viveu a vida que pensava querer. Bem educada, culta e com muitos diplomas. Volta e meia o som do campo ecoava em sua mente e ela rapidamente balançava a cabeça para desorganizar as memórias.

Hoje, parada à frente da porteira, sentia-se desnorteada. Sempre negou, mas os desejos de voltar sempre habitaram seu coração. Porém nunca havia imaginado retornar sob tais circunstâncias.

O lugar parecia bem cuidado, como nos tempos do velho coronel. Ela bem sabia que ele não tinha condições há tempos de tomar conta da estância, e hoje ele não estava mais lá. Era por isso que tinha voltado. Estranhou, o lugar realmente parecia bem cuidado.

Madura, com muitas histórias vividas, tinha feito questão de esquecer da primeira. O primeiro amor veio junto com a primeira dor, talvez a pior de todas elas. Mas ao andar por aqueles caminhos, sob as sombras daquelas mesmas árvores, ao avistar todos os cantos e quadrados onde aquela história havia se passado, era impossível não lembrar.

Já não conhecia o capataz, foi logo se apresentando. Ele espantou-se, a notícia naquelas bandas era que a filha do velho coronel havia morrido no exterior. Espantou-se ela. Os sentimentos de culpa e arrependimento enfim a inundaram por completo, chorou.

Depois de rever a maior parte da propriedade e da casa branca, lutando contra todos os sentimentos sem sucesso, sentia-se totalmente perdida e, finalmente, em casa.

Subiu no lombo de um cavalo cor de mel, que obedeceu suave ao seu toque, e o galope seguiu-se tranquilo. Havia esquecido da perfeição daquela sensação de liberdade completa, ao trotear campo afora apreciando o final de tarde, sentindo o abraço dos últimos raios de sol do dia.

Talvez um pouco tarde demais, decidiu realizar o desejo de seu recém falecido pai. Avistou ao longe a casa branca, a porteira e as árvores, sentiu o poder do campo e a tranquilidade invadiu seu coração. O dourado invadia todo o horizonte quando, de súbito, escutou o trote de outro animal.

O galope do cavalo baio à frente seguia forte e ela mal conseguia reconhecer a silhueta montada no animal. Mas, nesse caso, o coração sentia o que seus olhos não viam. Aquela primeira história, com um final arrancado à força 14 anos atrás, reabria suas páginas nessa paisagem acolhedora dos pampas. Ele vinha a seu encontro, agora que sabia que ela estava viva, decidido a esquecer as dores do passado, assim como ela.

As consequências daquele reencontro ainda são uma incógnita.
Mas parece, corre o boato por aquelas bandas, que a Fazenda Pôr-do-Sol novamente vive não só da simplicidade, mas do amor e de vivências que aquecem a alma.

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