6 de mai de 2011

O meu amor é amor de verdade

Ariel Engster
@ensta

Não há lugar específico para se apaixonar, não há lugar onde isso não possa acontecer. Nem ao menos há um lugar de referência, como a igreja para rezar ou o hospital para se sarar. Eu, por exemplo, me apaixonei no Bambus.
Acredito que o Bambus não seja o melhor lugar para um novo amor. Não por ser um bar - mas, sim, por ser caro. Imagine entrar num bar muito barato. Tu vais lá só porque quer beber uma cerveja e não quer gastar. O que te atrai não é a beleza do lugar, não é o alternativismo totalmente calculado ou o status que frequentar esse ambiente pode te dar. Tu vais lá só pra te satisfazer. E eis que encontras uma garota por lá! E eis que assim sabes que ela não está lá pela beleza, pelo alternativismo ou pelo status. Ela está lá só para beber uma cerveja e esta cerveja é barata. Uma mulher que se contenta em satisfazer suas vontades, sem precisar fazê-lo do modo mais rocambolesco. É isso que um homem mais precisa, é por isso que num bar caro não se encontra um bom par.
E assim voltamos ao Bambus. E à minha paixão. Loira, tinha lá seus um metro e setenta. All-star preto, calça dinz preta, casaco preto. Camiseta branca. Os cabelos presos num rabo-de-cavalo. E olheiras, aparentemente eternas. Não as havia notado, alguém apontou-mas. Defendi meu amor: disse que olheiras assim só tinha quem muito vivia. Para os sossegados, nem olheiras, nem calos, nem cortes.
Amigos me olharam reprovando: ela não era bonita! Desculpem, amigos, mas vocês nada entendem de amor. Amor verdadeiro é esse meu: não apresenta motivo, surge misterioso, cresce arrebatador e morre súbito. Morre puro, morre casto. Morre sem nunca ter sofrido dos males do amor.
Olhei para ela. Insistentemente. Parece minha sina, ver e não ser visto. Queria pedi-la em namoro ali mesmo, mas ela não me via! Eu, sim, amava de todo coração. Via e não era visto, amava e não era amado. Meu amor é tão amor de verdade que sequer pede amor em troca. Basta-se em si mesmo e é feliz assim. Meu amor é fulminante - e humilde, pedinte, lancinante.
O amor logo se foi. Ou, melhor, eu fui embora. Tinha de cumprir meu destino, pois, se é fulminante, meu amor é instantâneo; se instantâneo, é fugaz; mas, mesmo se fugaz, é perene. Não importa quanto tempo passe, quando rever a garota, meu amor por ela pulará de seu esconderijo e tomará conta de mim. E, logo em seguida morrerá. Novamente puro, novamente casto.
Vós, mulheres, não sois verdadeiramente amadas se não por um amor como o meu. Porque este amor existe sem interesse. Sem sequer o interesse de ser correspondido. O meu amor é que é amor de verdade. Pra ele não importa a beleza, não importa o dinheiro. Meu amor não obedece regra nem preceito algum. Meu amor é o mais anarquista dos anarquistas.
Temo, porém, que há de chegar a hora em que meu amor acabará. Chegará uma garota, a única garota capaz de me fazer mudar. Ela destruirá tudo o que eu conhecia antes e fará com que meu amor não seja mais fugaz, mas eterno. Fará com que todas as paixões passadas se façam arquivos-mortos numa estante burocrática, enquanto que ela se fará a própria brincadeira, o lado lúdico da vida. Desse momento em diante, meus amigos, admitirei nada mais saber do amor. Desse momento em diante, ela me ensinará qual o amor de verdade.



2 comentários:

  1. agora dá pra te ler por aqui também, delícia da vida

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  2. amor de bambus não fica. só o de pica HAHA

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