4 de mai de 2011

Usou os últimos litros de gasolina nessa pataquada

Ramiro Simch
@miroez


- Está tomado por ódio. Nenhum desses lampejos de amor-próprio atingem ele e o fazem se segurar, logo quando é mais necessário. Entra no carro e arranca. Vai usar os últimos litros de gasolina nessa pataquada - reabastecer depois só Deus sabe quando. A vida já não era fácil antes de tudo isso, agora é pior ainda. Mas nada interessa por ora, exceto o acerto de contas. Atropelando paralelepípedos, passa por um grupo de adolescentes numa esquina bebendo cerveja e fumando maconha num bong. Ele aplaude mentalmente a audácia dos jovens, se autoincentivando a prosseguir. Atravessou a cidade num tempo recorde: oito minutos de sua casa até o portão do condomínio, onde é admitido pelo porteiro simpático. Mostra pro homem a caixa de bombons embrulhada em papel de presente, à guisa de explicação desnecessária. Uma surpresa romântica no meio da noite. Guia o automóvel até a garagem da residência dela e estaciona corretamente. Entra na cozinha e toma um copo de água. O ímpeto diminuiu, ele está raciocinando melhor. A coisa vai ser feita do jeito certo. Respira fundo, tira os calçados. Sobe as escadas, mas a cada passo sua indignação aumenta de novo. Ante a porta do quarto dela, ele torna a ser a bomba de raiva que era há poucos minutos. Chuta a porta, arrombando-a. Ela acorda assustada com o barulho, encolhendo-se na cama. Pergunta por que ele não avisou que vinha, por que está fazendo isso. Ele chora de desespero, gritando “Traição não! Por quê?! Tudo menos traição!” Ela apavora-se com o interlocutor ensandecido, e começa a chorar também quando ele saca uma pistola. “Não me mata! Meu amor, eu nunca te traí! De onde tu tirou isso?! É mentira! Não me mata, por favor!” Ele urra de dor com os apelos da amada. “Cala a boca! Eu te traí, fui eu que te traí! Arghh!” Ele enfia a arma na própria boca e dispara, caindo sem vida no carpete.

- Porra... Tá legal, cara. Sei lá, melhora mais esse final aí e coloca no blog lá.

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